Extraído do blog BaptistGadfly, em inglês.
Tradução por Vinícius Pimentel
(No original, o título é “Teknon, Huios & Huiothesia”, em referência às três palavras gregas analisadas. Todos os grifos são do original.)
Um escritor afirmou:
“No mundo Ocidental nós entendemos a adoção no sentido de tirar uma criança de uma família e torná-la membro de outra. Todavia, o pai Grego ou Romano adotava sua própria criança como filho. O nascimento o fazia uma criança (teknon); a adoção o fazia um filho (huios). Entre o período de nascimento e adoção, havia os estágios de crescimento, educação e disciplina, até que a maturidade era alcançada pela adoção para filiação. Pela adoção o filho era reconhecido como aquele que poderia ser o fiel representante de seu pai. Ele havia alcançado o estágio da maturidade, no qual o pai poderia encarregá-lo com a responsabilidade de supervisionar os negócios da família. O filho se torna o “herdeiro” do patrimônio de seu pai. O nascimento dá a alguém o direito à herança, mas a adoção dá a alguém a participação na herança.
O comentarista bíblico R. B. Jones expõe: “Ser um filho é infinitamente mais do que ser uma criança, e os dois termos nunca são confundidos pelo Espírito Santo. Não é uma diferença de relacionamento, mas de posição. Toda criança “renascida” de Deus possui nela a natureza de Seu Pai, e é um amado membro da família de Seu Pai. A adoção não pode tornar a criança nem um pouco mais próxima ou mais querida, contudo ela confere à criança um status do qual ela não desfrutava antes, uma posição que ela não ocupava. A adoção é o seu reconhecimento enquanto um filho adulto, a conquista de sua maturidade, o selo sobre o seu crecimento até a maturidade de mente e de caráter. Uma criança é um nascido de Deus; um filho é um ensinado por Deus. Uma criança possui a natureza de Deus; um filho possui o caráter de Deus.
Um outro aspecto dessa palavra grega, huios, que não pode ser desprezado envolve “semelhança”. O Novo Testamento contém o conceito expresso no provérbio “Tal pai, tal filho” (Mt 5.45,48). Era comum no hebraico empregar a palavra “filho” para expressar semelhança. Por exemplo, aqueles que são pacificadores serão chamados filhos de Deus porque eles são semelhantes a Deus (Mt 5.9). A semelhança de Deus, a Sua imagem, será “estampada” sobre aqueles que são levados à maturidade e adotados como filhos (Rm 8.29; 1Jo 3.2-3).
Filiação e Maturidade
A Bíblia fala de filiação tanto em termos de “posição” como de “experiência”. Por exemplo, algumas passagens se referem ao aspecto “posicional” da filiação, no qual Deus nos declara legalmente “adotados” como filhos através de sua eleição soberana (Rm 8.15; Gl 3.26; 4.5-7). As Escrituras claramente indicam que existe um degrau para o qual se espera que entremos no aspecto “experimental” da filiação, na presente era (Mt 5.9, 45; Rm 8.14). Por exemplo, nós somos exortados em Hebreus 6.1 a “prosseguir rumo à maturidade” (isto é, “filiação”), a pensar como homens maduros (1Co 14.20), e a crescermos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo (Ef 4.15).
Todas essas passagens, e muitas outras, nos convidam à maturidade, que é sinônimo do conceito de filiação.”
(Don Walker, “Entendendo a ‘Filiação’”,
disponível aqui – em inglês)
Outro escritor diz:
“A palavra insuficientemente traduzida como “adoção” é huiothesia e ocorre apenas cinco vezes no Novo Testamento. Não é encontrada nos evangelhos, ainda que o seu princípio ou seu sentido exato esteja lá. Antes de examinarmos as cinco ocorrências, e o contexto na qual elas se dão, é preferível primeiro observar a palavra huiothesia por si mesma. Os léxicos não concordam exatamente quanto ao significado da palavra. Geralmente, eles fornecem significados do tipo “adoção como filho”, mas é uma definição vaga.”
“A palavra huiothesia nunca é usada para significar “tornar um filho”, mas sim para “reconhecer um filho”. Cada filho que é reconhecido já existe como um filho. O grego nunca sugere tornar alguém um filho e alguns léxicos chamam a atenção para isso. O Strong G5206 também aponta o significado “reconhecimento de um filho”. Seguindo tal endendimento, no Thayer encontramos: “Aquele relacionamento que aprouve a Deus estabelecer entre ele mesmo e os israelitas, em detrimento de todas as outras nações … aquele estado bendito encontrado na vida futura após o retorno visível de Cristo dos céus …”
“A palavra aparece em cinco versículos nos quais nós deveríamos ler reconhecimento de um filho ao invés de “adoção”.
“Rm 8.15 “Porque não recebestes o espírito de escravidão, para viverdes, outra vez, atemorizados, mas recebestes o espírito de adoção (reconhecimento de um filho), baseados no qual clamamos: Aba, Pai.”
É este espírito que em nós habita que possibilita aqueles que nasceram do alto a clamar [gr. krazo] “Aba, Pai”. O Dr. Bullinger’s comenta: Aba, Pai. Diz-se que aos escravos nunca era permitido usar a palavra Aba. Exatamente por esta razão, ela apenas pode ser empregada por aqueles que receberam o dom da natureza divina.
Paulo continua:
“Rm 8.16 “O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos crianças de Deus.”
“Rm 8.22-23 “Porque sabemos que toda a criação [ktisis], a um só tempo, geme e suporta angústias até agora. E não somente ela, mas também nós, que temos as primícias do Espírito, igualmente gememos em nosso íntimo, aguardando a adoção de filhos (reconhecimento enquanto filhos), a redenção do nosso corpo.”
Neste verso nós vemos uma explanação do que é a adoção, a saber, a redenção do nosso corpo.
(Arnold Kennedy, “O que verdadeiramente significa ‘adoção’?”,
disponível aqui – em inglês)
“A Versão Autorizada (AV) não distingue entre teknon e huios.”
(W.E. Vine, “Vine’s New Testament Words”)
NOTA: Estou estudando a diferença entre as palavras gregas teknon e huios. Nas traduções disponíveis em português, ambas são designadas como “filhos”, como se designassem sempre a mesma coisa. Porém não é assim, tanto que em inglês elas são traduzidas, respectivamente, como children e sons, algo como crianças e filhos. Às vezes, são usadas como sinônimos, mas mesmo nesses casos é pertinente a observação de que duas palavras diferentes nunca significam exatamente a mesma coisa, embora possam ser intercambiáveis.
Comentários à parte, quanto à tradução é bastante difícil escolher uma palavra portuguesa diante das tantas possibilidades que se apresentam em cada caso. E, justamente por estarmos discutindo as nuances semânticas de duas palavras, a tradução deveria ser o mais precisa possível. Devido à complexidade desse trabalho e à minha completa inexperiência, reconheço que o resultado final ficou aquém do esperado. Por este motivo, ficarei imensamente grato se os irmãos contribuírem com críticas à tradução. O link em inglês está no início do texto, para aqueles que puderem e quiserem cooperar.
Quanto ao conteúdo, quero dizer que este texto não expressa a minha opinião particular. Pelo contrário, estou apenas iniciando algumas pesquisas a respeito destes dois vocábulos e me dei conta da quase ausência de bom material em português na internet. Sendo assim, resolvi traduzir este para a edificação dos irmãos. Ficarei imensamente recompensado se receber toda sorte de comentários, críticas e adendos quanto ao real significado destas palavras gregas, ‘teknon’, ‘huios’ e ‘huiothesia’. Afinal, este blog deveria ser um propício ambiente à propagação, discussão e avaliação de idéias. Portanto, leiam, julguem, acrescentem, critiquem – enfim, comentem. Trata-se de um assunto bastante relevante para a nossa vida espiritual: a maturidade.
Creio que em breve postarei novas investigações acerca deste tema.
Em Cristo,
Vinícius Pimentel