O chamado esquecido da Igreja – Parte 2

“Porquanto para isto mesmo fostes chamados, pois que também Cristo sofreu em vosso lugar, deixando-vos exemplo para seguirdes os seus passos (1Pe 2.21)

Graça e Paz!
Antes de tudo, queria pedir desculpas pela demora. Muitas atividades, pouco tempo pra internet. Mas enfim, estou de volta!

Como já falei na primeira parte deste estudo, o nosso objetivo é entender que os sofrimentos devem fazer parte da nossa vida com Cristo. Depois de ter mostrado quais sofrimentos não se encaixam nessa afirmação, vamos ver o que realmente a Bíblia diz sobre o assunto.

O texto-base desse estudo é tão claro que me faz tremer. Jesus sofreu, nos deixando o exemplo para que nós possamos também suportar o sofrimento. Qualquer tentativa de diminuir a força do significado desse versículo pode ser sincera e confortável, mas é barata demais pra ser verdadeiramente bíblica. Precisamos entender que não existe Cristianismo sem sofrimentos, pois “o servo não é maior que o seu senhor”. Quem quiser seguir Jesus precisa entender a necessidade de “levar a sua cruz dia a dia”, pois o verdadeiro discípulo traz consigo as marcas do discipulado.

Mas a quais tipos de sofrimento estamos nos referindo? Vejamos alguns deles.

SOFRIMENTO POR CAUSA DE PERSEGUIÇÃO

“Ora, todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos.” (2Timóteo 3.12)

Algumas vezes ouvi pregadores e teólogos cristãos comentando esse versículo. Quase todos eles se esforçavam para diminuir o impacto que a frase do apóstolo Paulo lhes causava, sempre com base em dois argumentos: 1) esse “todos” usado por Paulo não se refere literalmente a todas as pessoas, mas a alguns cristãos em alguns lugares e momentos específicos; 2) o texto deve ser tomado em seu contexto temporal, num momento em que a perseguição era mais intensa.

É evidente que não podemos desprezar o contexto de nenhum texto bíblico, sob o risco de fazermos uma má interpretação das Escrituras. Porém não parece razoável a mim, depois de muito refletir sobre este versículo, dizer que ele se refira a um grupo específico de cristãos. Paulo está trazendo uma mensagem que é universal e que deveria ser bem compreendida pelo seu filho Timóteo, para que ele estivesse bem preparado para suportar todo tipo de sofrimento e perseguição por amor ao evangelho.

A perseguição não é algo que nós, cristãos, podemos sofrer ou não. Em maior ou menor grau, todo aquele que quer seguir Jesus Cristo será perseguido. Desde morte e tortura (o que não ocorre no Brasil, graças a Deus) até rejeição dos colegas de estudo ou de trabalho, zombaria… A perseguição ocorre por um motivo muito simples: o verdadeiro discípulo de Jesus é luz do mundo, sal da terra, reflete a santidade do seu Senhor e não se molda a este século. As trevas não podem suportar a vida de um cristão genuíno; ela incomoda, inquieta, chateia. Não estou falando de sermos pessoas chatas e incômodas, estou dizendo que um padrão de vida irrepreensível e ousado em Cristo causa essas sensações nas pessoas!

Mas por que se fala tão pouco em perseguição em nossos dias? Evidentemente, porque esse é um assunto desconfortável e incompatível com o “evangelho da bênção” que tem ganhado tanto espaço nas igrejas hoje. Ninguém quer ser perseguido. Eu também não! Porém não podemos fingir que não estamos cientes do que a Bíblia diz: TODOS OS QUE QUEREM VIVER PIEDOSAMENTE EM CRISTO JESUS SERÃO PERSEGUIDOS. Quer viver piedosamente? Quer ser aprovado por Deus? Quer ser usado por Ele para o crescimento e edificação da Igreja? Se respondeu sim a essas perguntas, então pode esperar: você vai ser perseguido.

Precisamos parar de pensar e pregar que o Evangelho nos trará, nesta vida, apenas bênçãos, vitória e ausência de problemas. Evangelho é guerra, é uma batalha árdua contra o pecado e o mal. E, mesmo que tenhamos a certeza da vitória final – pois Jesus já conquistou a vitória para nós -, não poderemos sair dessa guerra sem algumas feridas e machucões. O cristão maduro é aquele que entende a necessidade de passar por lutas e provas nesta vida como forma de crescimento espiritual e preparação para a vida eterna:

“… sofrimentos iguais aos vossos estão-se cumprindo na vossa irmandade espalhada pelo mundo. Ora, o Deus de toda a graça, que em Cristo vos chamou à sua eterna glória, depois de terdes sofrido por um pouco, ele mesmo vos há de aperfeiçoar, firmar, fortificar e fundamentar.” (1Pedro 5.9b-10)

SOFRIMENTO PARA RESISTIR AO PECADO E RECUSAR NOSSAS VONTADES

“Ora, na vossa luta contra o pecado, ainda não tendes resistido até ao sangue(Hebreus 12.4)

Quem dentre nós nunca se viu diante de uma situação em que o pecado estava ali, de braços abertos, nos convidando ardilosamente? Falo daquelas situações em que não vamos até o pecado, mas ele vem se oferecer a nós. Creio que todo cristão sabe do que estou falando, e sabe como é difícil resistir nessas horas. Parece que há uma força nos movendo, nos puxando, nos atraindo para o mal… e, se tentamos não pecar, sentimos um desconforto, um sofrimento, como se estivéssemos perdendo alguma coisa!

Esse tipo de sensação aparece de formas variadas: quando somos impulsionados a dizer uma “pequena mentirinha”, quando nossos “amigos” aparecem oferecendo bebidas (ou até outros tipos de drogas), quando ficamos a sós com nossas(os) namoradas(os)…

Também sentimos esse tipo de sofrimento quando estamos numa situação em que precisamos perder, mesmo estando certos. Quando meu irmão me provoca e eu tenho que calar para não desobedecer a Jesus Cristo, quando me ofendem e eu preciso abençoar, quando me maltratam e eu preciso amar… Nessas horas, sei que todos vocês já passaram por situações assim, a vontade que dá é uma só: gritar, xingar, berrar e, se possível, até agredir fisicamente. E, se tentamos resistir, vocês já sabem o que acontece: de um lado, o Espírito Santo nos impulsiona e nos fortalece para não pecarmos; do outro, uma voz estranha sopra dentro de nós: “Vai deixar isso barato?! Você está certo! Tem direito de reclamar, de brigar, de exigir! Não seja o bobo da Corte, senão da próxima vez vão passar por cima de você de novo, e será sempre assim! Imponha respeito!”

A parte triste da história é que a maioria das vezes nós temos dado ouvidos à segunda voz, aceitando as provocações de Satanás e refletindo um estilo de vida carnal, apegado aos padrões mundanos, ainda muito distante daquilo que Deus espera de nós. Sei que é difícil resistir ao pecado; também sou feito de carne e osso, sujeito às mesmas paixões e sentimentos que todo ser humano. Sei que somos criaturas obstinadas, não gostamos de perder nem de sair levando desvantagem em nada. Entretanto, fomos chamados a andar em novidade de vida! Precisamos refletir o padrão de Cristo, precisamos mostrar que somos santos e que em nós habita o Espírito transformador e regenerador. É por isso que o escritor aos Hebreus diz que ainda não temos resistido até ao sangue.

A luta contra o pecado envolve sofrimentos, envolve perder, envolve renunciar às coisas de que gostamos, coisas que nos dão prazer e que agradam o nosso ego. É preciso, porém, termos a consciência de que tais coisas não agradam a Deus e não condizem com o padrão de santidade do verdadeiro cristão. Por isso, precisamos resistir.

Um Cristianismo genuíno reconhece que não pecar significa, muitas vezes, sofrer; mas esse Cristianismo não aceita um estilo de vida diferente, pois compreende que sem santidade “ninguém verá o Senhor” (Hebreus 12.14). Sofrer para não pecar é, também, um sofrimento desejável aos cristãos, mesmo que doa:

“Meus irmãos, tende por motivo de toda alegria o passardes por várias provações, sabendo que a provação da vossa fé, uma vez confirmada, produz perseverança. Ora, a perseverança deve ter ação completa, para que sejais perfeitos e íntegros, em nada deficientes” (Tiago 1.2-4)

SOFRIMENTO POR AMOR À IGREJA DE CRISTO

Este é o último tipo de sofrimento que abordaremos nesse estudo, embora eu esteja convicto de que nesse pequeno texto não conseguimos alcançar a profundidade que o assunto pede. Este é o tópico que mais tem falado ao meu coração nos últimos tempos, e que mais tem me marcado; vejamos um texto das Escrituras:

“Além das coisas exteriores, há o que pesa sobre mim diariamente, a preocupação com todas as igrejas.” (2Coríntios 11.28)

Não tenho outro adjetivo para descrever: é LINDO o modo como o apóstolo Paulo demonstrava cuidado pelas igrejas, com preocupação genuína e amor sincero e espontâneo. Ele sempre sabia elogiar e glorificar a Deus pelo crescimento dos cristãos; também sabia repreender, exortar e corrigir. Porém o que mais me marca na forma como Paulo tratava as congregações é a sua identificação com elas: ele não se sentia como alguém de fora, como alguém que precisasse de credenciais ou títulos para exercer sua autoridade, mas o seu TESTEMUNHO era a fonte de sua autoridade.

O amor de Paulo pelas igrejas era tão profundo que ele chegou a fazer estas duas declarações, que eu considero verdadeiros exemplos para a minha vida como cristão:

“Porém em nada considero a vida preciosa para mim mesmo, contanto que complete a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus para testemunhar o evangelho da graça de Deus.” (Atos 20.24)

“… meus filhos, por quem, de novo, sofro as dores de parto, até ser Cristo formado em vós.” (Gálatas 4.19)

Precisamos servir a Cristo e a sua Igreja com amor e dedicação total, sentindo verdadeiras dores de parto por cada vida que está sendo gerada. Precisamos lutar pelo crescimento de nossos irmãos, dos novos convertidos; precisamos amar aqueles que se desviam, aqueles que tropeçam e caem, aqueles que muitas vezes se metem em confusões das quais não conseguem mais sair. Precisamos ser exemplos, precisamos ser modelos de vida cristã para que outros se sintam estimulados a seguir Jesus com a mesma ousadia com que nós fazemos. A igreja está cheia de problemas a serem resolvidos, e é exatamente nesse momento que nós podemos ver quem realmente ama a Deus e está disposto a sofrer para ver a Noiva de Cristo sem ruga e sem mancha, diante do altar.

CONCLUSÃO

Como pudemos ver nesse estudo, e eu espero ter sido claro, existem dois grandes grupos de sofrimento: aqueles que não devem fazer parte da vida cristã e aqueles que DEVEM estar presentes na nossa caminhada com Jesus.

O primeiro grupo, tratado na primeira parte desse estudo, deve ser encarado como algo indesejável e não devemos nos conformar com tais tipos de sofrimento, rogando a Deus que nos livre deles com base na fé no sangue precioso de Jesus, que foi derramado por nós.

Já o segundo grupo de sofrimentos constituem em uma NECESSIDADE para o nosso crescimento e aperfeiçoamento em Cristo. Os sofrimentos desse tipo são a forma usada por Deus para nos moldar à sua imagem e semelhança. Precisamos entender que a perseguição faz parte de nosso dia-a-dia como crentes, uma vez que estamos buscando a santidade e a perfeição. Também precisamos entender que resistir ao pecado não é tarefa fácil e que muitas vezes teremos que sofrer “até ao sangue” para conseguirmos manter um padrão de vida agradável a Deus. Por fim, é necessário sofrermos pela Igreja, sacrificando nossas próprias vontades, sonhos e desejos. É preciso ser como o apóstolo Paulo, não considerando mais a vida preciosa para nós mesmos, mas entregando o nosso melhor para ver o Corpo de Cristo em perfeita harmonia e comunhão. Quanto a estes sofrimentos, Tiago já disse que devemos encará-los como “motivo de TODA alegria”.

Sendo assim, que venham os sofrimentos!

Que Deus nos abençoe.
Até a próxima!

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