O único e verdadeiro Evangelho – Parte 4

Renunciar é perder tudo!

Eu fico impressionado com os “malabarismos” teológicos, doutrinários e interpretativos que muitas vezes nós crentes fazemos. Dizemos que temos a Bíblia como Palavra de Deus infalível, perfeita, mais que suficiente, que nossa fé é embasada tão-somente nas Escrituras. Entretanto, em nosso lidar diário com a Palavra, costumamos “escolher” os excertos que mais nos agradam e nos apegamos a eles. Sabemos utilizar a Bíblia muito bem para pregar lições extraídas de histórias específicas, mas temos dificuldade de obter uma compreensão ampla das Escrituras como um todo perfeito.

Certamente que é importante analisarmos cada texto bíblico isoladamente, de forma minuciosa, a fim de obtermos luz sobre verdades mais profundas das Escrituras. O problema é que, se estudamos a Bíblia dessa forma sem procurarmos obter uma visão panorâmica da Revelação de Deus, é como se estivéssemos prestando atenção nas peças de um quebra-cabeças sem atentarmos para a imagem completa que está sendo formada. Estaríamos juntando as peças apenas pelo fato de elas encaixarem umas nas outras, sem perceber que a figura que queríamos montar não está surgindo.

Por que eu digo isso? Porque, se queremos alcançar o padrão de Deus para a vida de um cristão, não basta que nos limitemos a moldar algumas áreas de nossas vidas segundo a Palavra, mas precisamos adquirir uma cosmovisão bíblica, isto é, precisamos adquirir um modo de pensar o mundo – inclusive nós mesmos – em consonância com aquilo que a Bíblia nos ensina. E para isso precisamos não de um conhecimento compartimentado das Escrituras, mas de uma visão ampla, extensiva do ensino da Palavra de Deus.

Após toda essa introdução, pergunto novamente: qual é, então, o único e verdadeiro Evangelho? Passemos ao terceiro ponto deste nosso estudo:

3. É O EVANGELHO DA RENÚNCIA

“Assim, pois, todo aquele que dentre vós não renuncia a tudo quanto tem não pode ser meu discípulo.” (Lucas 14.33)

O texto acima serve-nos apenas como um leve aperitivo de tudo o que a Palavra de Deus nos fala acerca deste tema. Entretanto quero me concentrar nele. É de estarrecer a forma como teólogos e pregadores tentam diluir a mensagem contida nos discursos de Jesus. Aqui, o nosso Senhor afirma com clareza que “todo aquele que dentre vós não renuncia a tudo quanto tem não pode ser meu discípulo”. Já vi gente dizer uma enxurrada de baboseiras, do tipo: “esse ‘todo aquele’ não significa ‘todo aquele'”, “esse ‘tudo quanto tem’ não é bem assim…”, “esse ‘não pode ser meu discípulo’ não quer dizer exatamente isso” etc. Seria de rir, se não fosse uma afronta ao Deus vivo que se revela a nós por meio de Sua palavra escrita.

Ora, a conclusão clara que tiramos do discurso de Jesus Cristo é que a renúncia é condição inafastável, indispensável para ser um discípulo.  E o que é renunciar? Uma boa definição seria dizer que renunciar é pegar algo que é seu e, voluntariamente, entregar a uma outra pessoa, de modo que aquele algo deixa de ser seu e se torna dela. Renunciar é diferente de ser usurpado, exatamente porque exige uma disposição e uma voluntariedade daquele que renuncia. Renunciar também é diferente de emprestar, porque implica a consciência de que aquilo que renunciei não mais me pertence.

Que grande verdade é esta que as Escrituras nos ensinam! Somos chamados por Deus a uma vida de entrega total, uma vida de tão intensa consagração que o Salvador chega ao ponto de nos dizer: “aquele que não renuncia a tudo quanto tem não pode ser meu discípulo”. Eu sei, amado, que não é este o discurso que sai da boca dos pregadores nos dias de hoje. E acredite: é muito mais fácil para mim dizer isto do que viver isto. Todavia não posso “mudar Deus” para tentar conformá-lo à minha vontade, mas eu quem devo conformar-me à Sua palavra. E se ele diz que aquele que não renuncia a tudo quanto tem não pode ser Seu discípulo, então a conclusão óbvia a que chego é a de que eu estou numa situação muito ruim perante Ele.

Entenda-me: isto não anula o ponto anterior, no qual fui muito claro em afirmar que a salvação é totalmente gratuita e depende apenas de Deus realizar em mim a regeneração. A grande questão que tem sido negligenciada nestes dias é que a salvação não é um fim em si mesma. O que queremos dizer com isso é que a salvação é apenas o ato de Deus nos transportar do império das trevas para o reino do Seu filho amado, mas que tal intervenção divina não encerra tudo o que Deus planejou fazer em nós.

Deixe-me tentar ser mais claro. Estávamos em trevas, cegados pelo deus deste século, mortos em nossos delitos e pecados, condenados ao castigo eterno. Deus, em sua infinita longanimidade e misericórdia, nos salvou, arrancando de nós todo este peso de culpa e nos colocando em condição de Seus filhos. Mas este é apenas o começo de todo o projeto de Deus de nos edificar, nos levar a uma experiência pessoal de relacionamento com ele e, por fim, nos conformar à imagem e semelhança de Seu filho, o primogênito Jesus.

O primeiro passo, a salvação, é um ato totalmente divino e gratuito – até porque nós, enquanto seres totalmente depravados pela natureza caída de Adão, não tínhamos condições nenhumas de alcançá-lo por nós mesmos. Entretanto, uma vez transformados no nosso espírito, e tendo recebido a natureza do Espírito de Deus, tal problema está resolvido uma vez por todas, de modo que os passos seguintes, edificação, experiência e conformação, não serão dados por Deus mesmo, senão por uma cooperação entre o Deus Todo-Poderoso e os seus filhos regenerados.

É aí que entra justamente a necessidade de renunciar. Deixe-me dizer: seremos tanto mais parecidos com Jesus quanto mais abrirmos mão de nós mesmos. Existe em nós um “eu” que quer governar, e somente quando esse eu for destronado poderemos de fato ser à imagem e semelhança do Filho de Deus. Somente quando deixarmos de lado a nossa vontade, Deus poderá realizar Sua vontade em nós; somente quando negarmos os nossos interesses, sentiremos desejo pelas coisas espirituais; e, somente quando apagamos os nossos planos, poderemos descobrir com mais profundidade qual é o plano de Deus para as nossas vidas.

A questão da salvação é uma questão de tudo ou nada: ou se tem ou não se tem, ou se é salvo ou não é. Mas com a renúncia não é assim. Uns renunciam mais, outros menos, e isso influencia diretamente no nível de relacionamento e intimidade que temos com Deus e no quanto nos tornamos parecidos com Ele. A medida da minha renúncia será a medida do quanto Deus derramará Seu Espírito e Sua unção em mim, a fim de que eu possa conhecê-lo mais de perto. Que realidade tremenda! O preço do discipulado genuíno é alto, tão alto que o Senhor nos convoca a renunciarmos a tudo quanto temos, pois só quando nos esvaziarmos de nós é que poderemos ser cheios da vida genuína do Espírito.

Não se iluda. Não engula um evangelho barato, diluído, no qual Deus só exige que você apresente uma certa freqüência nos cultos, tenha uma aparência de piedade ou seja fiel em dar o dízimo. Se você quer tudo de Deus, então preste atenção: Deus pede tudo. E você nunca o conhecerá profundamente enquanto só puder Lhe dar um pouco, muito ou mesmo quase tudo.

Foi isso que o apóstolo Paulo quis nos ensinar quando escreveu: “Mas o que, para mim, era lucro, isto considerei perda por causa de Cristo. Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; por amor do qual perdi todas as coisas […] para o conhecer (Filipenses 3.7-10). Deus só se revelará plenamente a nós à medida em que, sondando nossos corações, Ele descubra que nada mais tem tanto valor para nós quanto conhecê-lo. Quando tivermos renunciado a tudo, então o caminho estará aberto para que o Espírito flua de nós e em nós. Mas só quando tivermos renunciado a tudo.

É isto que também nos ensina o irmão T. Austin-Sparks: “O Espírito Santo nos conhece. Ele olha direto para os nossos corações e sabe se levamos a sério. Ele vê exatamente aquilo que O limita e quão longe pode ir. O Senhor Não vai coagir a ninguém. Se estamos voltados para nós mesmos, ocupados conosco mesmos, girando ao nosso redor, centralizados em nós, então o Espírito Santo não tem chance. Temos que chegar ao fim de nós mesmos.

O caminho para o fim de nós mesmos é a renúncia. E este é o mesmo caminho para experimentarmos o perfeito conhecimento de Deus.

Em Cristo, aquele que renunciou tudo por amor de nós,
Vinícius Pimentel

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